Os pioneiros trouxeram na bagagem mais do que poucos pertences: carregavam sonhos. Sonhos de construir uma nova vida, formar família, criar vínculos e crescer junto com a cidade. Com luta, fé e coragem, enfrentaram desafios imensos – e dessa semeadura brotou a colheita genérica da qual hoje todos somos beneficiários.
Nesta edição, o olhar se volta para uma dessas histórias que ajudam a contar a alma de Pacaembu. A pioneira Doraci Garcia Abate, de 76 anos, nasceu em Catanduva e chegou à cidade ainda menina, aos 11 anos de idade. Aqui encontrou dificuldades, mas também aprendizados.
Doraci recorda que, quando chegou, Pacaembu abrigava muitos descendentes de japoneses. Seus pais passaram a residir no sítio do senhor Mário Makura, onde toda a família trabalhava na roça. Café, milho, arroz, enxada nas mãos, cuidado com os animais – nada lhes era estranho. O trabalho duro fazia parte da rotina e da formação.
Na memória, ainda estão vivos os cenários da cidade em seus primeiros passos. Na rua da antiga feira municipal, havia um córrego que era atravessado por uma simples pinguela, passagem obrigatória de quem seguia adiante, equilibrando-se entre a pressa e o cuidado – como a própria vida.
Em 1969, Doraci casou-se com o senhor João Abate (in memoriam). Da união nasceu a filha Roseli. Persistente e incansável, Doraci nunca mediu esforços para sustentar a família. Chegou a trabalhar para 16 famílias lavando roupas, em uma época em que não existiam máquinas de lavar. Cada peça era lavada à mão, com força nos braços e esperança no coração.
Em 1980, iniciou uma nova etapa profissional, passando a trabalhar na limpeza do Banco Bradesco, onde permaneceu por 44 anos e meio. Mesmo aposentada, Doraci segue ativa, realizando faxinas para antigas clientes – prova de que o trabalho, para ela, sempre foi também dignidade.
Moradora da mesma rua há 54 anos, hoje sua casa está em frente à Paróquia Nossa Senhora das Graças de Pacaembu. Da porta de casa, ela avista a igreja e a imagem da Santa, cenário que, segundo Doraci, lhe dá forças para continuar lutando, dia após dia.
Ao final, deixa uma mensagem que resume sua trajetória e sua fé, dirigida a todos os Pacaembuenses:
“Eu amo Pacaembu, minha cidade! Mesmo com as dificuldades que a gente passa nessa vida, temos que confiar em Deus, dobrar os joelhos no chão, às vezes de madrugada, para poder vencer os momentos difíceis da vida. ”
Histórias como a de Doraci Garcia Abate são alicerces invisíveis, mas firmes, que sustentam a cidade – testemunhos de que Pacaembu foi construída com trabalho, fé e coragem.